Carlos Drummond de Andrade, 80 anos da publicação de "Alguma Poesia", Edições Pindorama, Belo Horizonte, 1930. Hoje no jornal Estado de Minas a crônica de Fernando Brant, o grande letrista do Clube da Esquina, fez referência a este fato. Fiquei tentado a também escrever,
me impressiona muito ele logo no primeiro poema nos apresentar a síntese de toda a sua vida e obra.
Então vejamos:
POEMA DAS SETE FACES
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.